10/05/2012

Jodaeiye Nader az Simin (aka A Separation)

Vencedor de vários prémios por todo o mundo, inclusive do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, é a prova que se fazem grandes filmes por todo o planeta. Seja junto das avenidas recheadas de palmeiras de LA, seja nas favelas no Brasil, seja sob o regime de censura de Mahmoud Ahmadinejad, as obras cinematográficas podem vir de qualquer lado. Neste caso, Irão.

Tudo começa com o pedido de divórcio porque a mulher quer emigrar e o homem não quer abandonar o seu pai que sofre de Alzheimer. Acabam por separar-se, obrigando a que o homem contrate alguém para cuidar do seu velho pai o que originará uma série de eventos que irão afectá-los a todos.

O realizador iraniano Asghar Farhadi não foi muito longe para compor o seu elenco. Iranianos. Os 'responsáveis' por desencadear tudo o que se passa são Peyman Moadi(Ele) e Leila Hatami(Ela), o casal protagonista do filme. Mas no seio do casal há distinção de protagonismo já que Ele é bem mais presente do que Ela. E a meu ver consegue uma melhor actuação. Fantástica a forma como consegue manter aquele ar sereno e do nada começar a argumentar com garra como se a sua vida dependesse disso. Gostei. Outro casal importante na história é composto por Sareh Bayat(Ela) e Shahab Hosseini(Ele). Mais uma vez acho que Ele leva vantagem porque a sua personagem o permite já que vária vezes tem ataques de loucura. As interpretações das duas actrizes ficam marcadas pela serenidade(na forma de falar e na maneira de estar) que mantém ao longo do filme. Só saem desse registo em casa ou para suplicar. É um retrato/crítica social do papel das mulheres nas sociedades do mundo árabe. Não admira que uma d'Elas queira emigrar...


Ver filmes de culturas mais fechadas é a oportunidade de aprendermos mais sobre estas sociedades, principalmente língua e modo de vida. Começando pela língua, esta é melódica. Menos agressiva que as línguas asiáticas e mais nasal do que estamos habituados, acabamos por nem perceber que estamos a ver um filme numa língua da qual não percebemos nada. Parece ser uma língua bastante 'low profile'. No que diz respeito a modo de vida, hábitos e costumes há muito foco na superioridade do homem em relação à mulher. Para além disso tomamos contacto com as burcas(sempre presentes), nas crenças religiosas(um telefonema para saber se é pecado ajudar um homem senil a trocar de calças), nas estranhas leis e tribunais(pagamento de sangue para não ir preso, mesmo que seja homicídio).

Simin: He doesn't even know you're his son.
Nader: But I know he's my father...

Estou aqui a lembrar-me se o filme tem banda sonora mas acho que não. Pelo menos não me recordo. É só diálogos atrás de diálogos. E mais diálogos. Quase sempre filmado com câmara de mão, transporta-nos para perto das diferentes situações, envolve-nos nelas. E após 2 horas a conhecermos as diferentes personagens e as suas personalidades, a descobrirmos que mentiras disseram, o que fizeram conscientemente ou por acaso, tenta-nos a decidir quem tem razão. Quem é culpado? Quem é inocente?  Parece querer fazer de nós os juízes de toda a situação. Ainda para mais sempre que existe um juiz presente parece que está sempre onde está a câmara(início e fim do filme). Quer fazer-nos juízes e deixa-nos terminar a história à nossa maneira...

Nader: What is wrong is wrong, no matter who said it or where it's written. 

Começando pelo óbvio, foi o melhor filme iraniano que já vi. Mas digo mais, seguramente Top 10 do último ano. Luta contra os estereótipos muçulmanos habituais. Vale muito a pena :D

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