04/04/2012

Cus divinos

É um costume ancestral e venerado do meu povo começar a contar uma história dirigindo uma prece a um Poder Divino. 
Calculo, Vossa Excelência, que também seria boa ideia se eu começasse por lamber o cu dum deus qualquer.
Mas o cu de que deus, pergunto-me eu? O sortido é tão variado.
Sabe, os muçulmanos têm um único deus. 
Os cristãos têm três deuses. 
E nós, os hindus, temos 36 000 000 de deuses. 
O que perfaz um total de 36 000 004 cus divinos por onde eu escolher.
Bem sei que há pessoas, e não me estou a referir apenas a comunistas como o senhor, mas a pensadores de todos os partidos políticos, que julgam que a maioria destes deuses não existe deveras. Há até alguns que estão convencidos de que nenhum deles existe. Só existimos nós e um oceano de escuridão à nossa volta. Mas eu, que estou longe de ser filósofo ou poeta, como poderei saber a verdade? É um facto que estes deuses, apesar de pouco ou nada fazerem — muito à semelhança dos nossos políticos —, todos os anos são reeleitos para os tronos dourados do céu. Não quero com isto dizer, senhor primeiro-ministro, que eu não os respeite! Nunca permita que esta ideia blasfema se inculque no seu espírito amarelo. O meu país é do género em que fazer jogo duplo compensa: o empresário indiano tem de ser em simultâneo honesto e trapaceiro, trocista e ingénuo, matreiro e sincero. 
Assim: estou a fechar os olhos, a juntar as palmas das mãos num namasté reverente e a rezar aos deuses para que iluminem a minha história obscura.
Seja paciente comigo, Sr. Jiabao. Isto é bem capaz de levar algum tempo. 
Quanto tempo acha o senhor que levaria a lamber 36 000 004 cus?

Aravind Adiga em O Tigre Branco

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